domingo, 27 de fevereiro de 2011

Caminho-de-ferro

Fujo nesse caminho-de-ferro
Para uma pausa na minha vida
Onde a libertação me alivia desse erro
Palavras fora de contexto, numa página já lida.

Essa escada sob os neons azuis a brilhar
Conduzem-nos às nuvens de leds intermitentes
Nessa noite onde os mortos devem ressuscitar
O amor foi cruz cravada, em sonhos dementes


Corpo habituado a sucessivas transformações
Que me moldam e me tornam invencivelmente ferida
Sou guerra civil declarada às emoções
Neste combate dentro de mim, sou lágrima perdida


Num caminho feito de ferro
Volto, passageiro anónimo, invisível por defeito
Nesse hiato de tempo até chegar ao vazio, rarefeito

Mecânica de corpos

Construímos muralhas no nosso interior
Pela ansiedade de que o salto nos vá quebrar
Tranco memórias que invocam dor,
protegendo o embate, fecho o sentimento ao meu olhar.

Desenho uma linha de tempo direccionada
Onde os dias avançam presos por molas a oscilar
Pêndulos, num sistema que tende a desfasar

Pião desgovernado em rota de colisão
Girando em torno de si mesmo, prestes a parar
Nesse chão de madeira sob o carvão
a arder, a minha vontade em perfeita combustão

Sou parte da mecânica desta engrenagem
Num contínuo de rotações impessoais
Agredidos pelo impacto da última paragem
Somos caos instalado por falta de condições iniciais.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Convulsão



Cais em convulsão
Nessa superfície elástica
Provocando uma revolução
Nessa imagem plástica

Parte de um todo sem significado
És forma difusa que me dá conforto
Fingindo separar o que não sentes quebrado
Numa mente confusa, sou pensamento morto

"Aqui está frio e é sempre noite"

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Versão 1.5


Esse creme cobre o meu corpo despido
Com escamas numa camada espessa
Os meus lábios escarlate, mordem esse fio comprido
Que amarra a minha vontade ainda presa

A lua marca a hora nesse encontro de titãs
Perto dessa paragem que nos une na ambição
Os meus saltos seguem o caminho das palavras vãs
O relógio decide o futuro da emancipação

Os velhos trapos ficaram trancados
Na caixa de lata onde guardo os valores
Os meus olhos pintados de negro são desejos roubados
Colados nas paredes cinza à espera de serem preenchidas por cores

Os dados lançaram um nove incendiado
E a minha sorte só aceita um número par
Mas os segundos continuam a contar nesse copo envenenado
E nesta versão apenas o prazer vai ter lugar

Um homem singular

Nesse compasso de melodia decadente
esfumam-se memórias por entre os dedos
num último beijo vazio, latente
duma estória perfeita abandonada em segredos

Onde ela nos solta e liberta
nos agarra e transporta para o nosso ser
Tomando em seus braços a ferida aberta
e em plena harmonia me suga o viver

Mergulhando nessa translucida densidade
a gravidade perde o seu cruel sentido
desarmando toda esta intensidade


Nesse outro plano um grito escondido
num dia em ruínas que espelha a realidade
escolho em consciência, parar esse respirar contido

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

o

Do outro lado  do espelho velho
ficaste abraçado a mim nessa tarde
o telefone em silêncio nesse sorriso amarelo
não tocou para te levar nesse fogo que não arde

Do lado de lá os meu pés frios tocam nessa pele quente
e as tuas mãos sufocam a minha garganta
e o prazer é um momento que se aprecia lentamente

Retiro o ar da tua boca para os meus pulmões
num gesto egoísta és o que eu quiser que sejas
numa fantasia entre dois corpos sem corações

how does it feel?